João Simões Lopes Neto

As margens do arroio Pelotas serviram de berço natal a João Simões Lopes Neto. Ali, na propriedade do avô paterno, que também funcionava como charqueada, teve contato com as primeiras imagens que lhe ficaram gravadas na mente. Foram aquelas da vida de campo, das lides com o gado, dos brinquedos de guri de campanha e do pai, administrador do estabelecimento e gaúcho de lei.

A Estância da Graça, às margens do arroio Pelotas, nas proximidades da povoação do mesmo nome, serviu de berço natal a João Simões Lopes Neto. Ali, na propriedade do avô paterno, nasceu a 9 de março de 1865. Seus pais foram Catão Bonifácio Lopes, filho de João Simões Lopes Fº (Visconde da Graça), e Teresa de Freitas Lopes, ambos descendentes de proprietários rurais. Na estância, que também funcionava como charqueada, viveu até o ano de 1876, quando, com 11 anos de idade, perdeu a mãe. As primeiras imagens que lhe ficaram gravadas na mente foram aquelas da vida de campo, das lides com o gado, dos brinquedos de guri de campanha e do pai, administrador do estabelecimento e gaúcho de lei.

Órfão de mãe, tendo três irmãs, o pequeno João foi levado para Pelotas, também com o propósito de iniciar sua vida escolar. Teria começado os estudos regulares num Colégio Francês, então existente e da propriedade de Aristides Guidony. Depois, como era habitual nas famílias mais abas-tadas, foi conduzido ao Rio de Janeiro, aos cuidados do tio-avô Ildefonso Simões Lopes e do tio materno João Augusto Belchior que lá residiam. Seus estudos, na capital do Império, até hoje não foram bem elucidados. Seus biógrafos, em maciça maioria, têm sustentado que freqüentou o Colégio Abílio, do barão de Macaúbas, aquele mesmo retratado na obra “O Ateneu”, de Raul Pompéia. Logo a seguir teria cursado medicina, abandonando os estudos, em virtude de doença, quando estava no terceiro ano. Sem diploma, retorna à terra natal por volta de 1884.

Nessa época, seu pai administrava uma das enormes propriedades rurais do avô paterno, a Estância São Sebastião, em Uruguaiana. Para lá partiu e, em companhia do pai, a imensidão do pampa, as proezas da peonada e as histórias galponeiras, certamente, somaram-se àquelas primeiras experiências da infância, povoando-lhe o cérebro e muito contribuindo para, mais tarde, estimular-lhe a imaginação e a inventividade.
Em Pelotas, no auge de sua prosperidade social e econômica, o jornal “A Pátria” era adquirido por Ismael Simões Lopes, tio do futuro escritor, onde este deu os primeiros passos no jornalismo, ocupação, aliás, de que nunca se afastou até o penúltimo dia de sua malograda existência, indo de simples colaborador à condição de diretor de jornal. Concomitantemente, dedicou-se a outras atividades, “algumas um tanto inusitadas, quando não fantasistas”, no dizer de um dos ilustres analistas de sua vida e da sua obra. Assim, em 1890, estabelecia-se com pequeno escritório de despachante geral. Em seguida, desaparecido o jornal “A Pátria”, passa a colaborar no “Diário Popular” que, fundado em 1890, mantém-se em circulação até os dias atuais.

No ano de 1892, em maio, casa-se com Francisca de Paula Meirelles Leite. Conhecida por D. Velha, ela sobreviveu ao marido por quase meio século. Não tiveram filhos, mas criaram uma menina que, muito afeiçoada ao escritor, tratava-lhe como pai. Com a eclosão do movimento armado entre maragatos e pica-paus, Simões, embora de tradicional família republicana, já nomeado tenente da Guarda Nacional, manteve-se distante do conflito bélico. Desta corporação seria promovido a capitão somente em 1901. Ainda em 1893, associado a Ildefonso Correia, inaugurava a Vidraria Pelotense, da qual foi incorporador e que vinham organizando desde 1891. Sua duração não ultrapassou o ano de 1895. Com outros sócios, pela mesma época, conseguiu autorização para constituir a “Companhia Destilação Pelotense” que teve igualmente vida efêmera. Havia prestado sua colaboração ao jornal “Correio Mercantil”, com o pseudônimo de “Serafim Bemol”. Também fez parte da diretoria da Associação Comercial.

Em 1896, surge o jornal “A Opinião Pública” e nele também luzia a pena admirável de João Simões Lopes Neto. Neste ano, em junho, morria o seu pai por quem nutria grande afeto e reconhecida admiração. Promovido o respectivo inventário, Simões foi aquinhoado com uma quantia razoável que poderia muito bem acomodar-lhe a vida, embora não representasse uma fortuna. Adquiriu uma casa na rua Sete de Abril, desfazendo-se, em seguida, de outra que possuía na rua Paisandu. Subscreveu ações do Diário Popular, passando a acionista do mesmo. Dispondo de recursos, juntamente com seu cunhado José Gomes Mendes, inaugura o Café Cruzeiro, varejo e atacado, visando à comercialização de café em grão. A sociedade, como tantas outras, não daria certo; sucumbiu diante da concorrência voraz. Entre sonhos e devaneios, Simões, inclusive, andou projetando uma expedição exploratória a Santa Catarina, em busca da prata que existiria na localidade de Taió. De concreto, apenas sua eleição para o Conselho Municipal.

Pertenceu e foi Presidente do Clube Ciclista de Pelotas e um dos fundadores da Sociedade Agrícola Pastoril, criada em 1898. Em 10 de setembro de 1899, foi fundada em Pelotas a União Gaúcha, que teve como primeiro presidente um tio do escritor; Simões somente ingressaria na nova entidade em 1901 e a presidiria em 1905. No raiar do novo século, cria a Fábrica de Fumos e Cigarros marca DIABO. O empreendimento, se bem que mais duradouro, trouxe-lhe também muitos dissabores. Paralelamente, concebia uma fórmula de fungicida e inseticida, com aproveitamento de resíduos do próprio tabaco, a que deu o nome de “Tabacina”, específico para a cura de plantas e animais. Tanto prestígio adquiriu a fórmula que veio a merecer, além de prêmios, um artigo de página inteira na conceituada Revista Agrícola de Rio Grande do Sul, assinado pelo não menos renomado professor Manoel Serafim Gomes de Freitas. O professor, mais tarde, viria a ser colega de Simões na diretoria da Biblioteca Pública Pelotense e seu confrade na Academia de Letras do Rio Grande do Sul.
Em meio a conferências, atividades culturais, comerciais e industriais, já com alguns embaraços financeiros, assume o 2º Cartório de Notas de Pelotas, permanecendo no cargo pelo menos até 1907. Sempre pressionado por dificuldades nos negócios, Simões, todavia, jamais perdeu a criatividade. Em 1906, também impelido pelo civismo e brasilidade que lhe eram peculiares, lança uma série de cartões-postais, com o exuberante título de “Coleção Brasiliana de Vulgarização dos Fastos da História Nacional”. Era sua intenção publicar 12 séries com 25 cartões cada uma. Não conseguiu concluir o projeto. São conhecidas apenas as duas primeiras séries.

Em 1908, realiza-se, em Pelotas o I Congresso Agrícola do Rio Grande do Sul, no qual Simões teve destacada participação. Foi secretário de uma das comissões e relator de vários pareceres e sugestões. Apresentou a tese “O problema dos transportes e a questão das tarifas”, considerada “de relevante importância”. Tudo a evidenciar sua multifacetada capacidade criativa. No ano de 1910, já vamos encontrá-lo entre os fundadores da Academia de Letras do Rio Grande do Sul, ocupando a cadeira nº 3 que tinha como patrono o pelotense Álvaro Chaves. No ano seguinte, preside a Sociedade Rio-Grandense Protetora dos Animais e promove o lançamento da “Revista Centenária” com o fim de iniciar as comemorações do centenário de Pelotas. Foram publicados 8 números, sendo os dois últimos aglutinados. Nesta época, já manifestava sintomas de estar doente. Vendera a casa onde residia e, mediante remuneração, passava a redator de “A Opinião Pública”, vivendo humildemente.
O “Correio Mercantil” estava sob a chefia de José Carlos de Sousa Lobo que no cargo se manteve até 1914, ano em que “por motivo de saúde” deixou a direção, sendo suspensa a publicação do jornal. Foi rápida, entretanto, a paralisação. Onze dias depois reaparecia, ostentando como diretor Simões Lopes Neto. Foi a mais expressiva posição alcançada na sua já longa carreira jornalística. Não dispunha de outro meio de subsistência e a debacle do jornal, no final de 1915, sufocaria mais um sonho do escritor. Retorna à “A Opinião Pública” como redator.

O inverno de 1916 avizinhava-se e a saúde dava claros sinais de debilidade. No dia 12 de junho ainda compareceu à redação do jornal. No dia seguinte, permaneceu no leito, sendo atendido pelos Drs. Antero Leivas e Francisco Simões, seu tio. Em 14 de junho de 1916, às 15 horas e quinze minutos, com 51 anos de idade, faleceu João Simões Lopes Neto. A morte e o velório ocorreram na casa de uma cunhada, pois já não possuía residência própria. Diria seu tio, médico que o acompanhou sempre, que a morte se dera em virtude de uma “úlcera duodenal, com perfuração”. Acredito que, se fosse permitida a Simões a lavratura do próprio diagnóstico, não deixaria de registrar como causas determinantes da sua morte um profundo abatimento moral, uma invencível sensação de fracasso e um punhado de quimeras desfeitas! Nada sabia ele da glória que o aguardava na posteridade.

TEXTO DE AUTORIA DE FAUSTO JOSÉ LEITÃO DOMINGUES